Quando pensam em Procurement, muita gente imagina planilhas, cotações e negociação de preço. Eu também pensava assim no começo da carreira. Até que, em 2009, recebi uma missão que me mostrou como compras podem ser decisivas para a sustentabilidade de uma operação inteira.
O desafio: dobrar o canavial
A operação da Guarani em Marromeu, na província de Sofala, em Moçambique, tinha uma meta ousada: dobrar a área de plantio de cana-de-açúcar de 15 mil para 30 mil hectares. Só que a cana é uma cultura perene, com ciclo de 12 a 18 meses, e se expande por propagação vegetativa, não por sementes. Na época, não havia canaviais suficientes para fornecer mudas, nem tecnologia adequada para transportá-las até lá.
A missão de resolver esse problema ficou comigo. Junto com a Lúcia Cristina M. Ruiz, do Laboratório de Cultura de Tecidos da Unidade Cruz Alta, desenvolvi o projeto logístico para enviar mudas produzidas em laboratório ao continente africano. Foram duas mil mudas na primeira remessa, e foi a primeira vez que uma empresa brasileira expediu mudas de cana para a África.
25 dias de viagem, zero margem para erro
As mudas precisavam chegar livres de patógenos, respeitando o ciclo de vida da planta durante cerca de 25 dias de transporte. Cada etapa foi planejada nos detalhes, desde o momento exato do ciclo de desenvolvimento in vitro, para que a muda enraizasse durante a viagem, até as intempéries a que o dispositivo poderia estar sujeito.
Foram seis meses de pesquisa e trabalho. A Lúcia desenvolveu um gel que garante a nutrição uniforme da planta e evita o crescimento excessivo no percurso. Do lado de suprimentos, coube encontrar uma embalagem que resistisse a altas temperaturas e projetar caixas de madeira que mantivessem temperatura e iluminação adequadas. Eu entendia de logística, embalagem e suprimentos. Ela entendia de biologia vegetal. Nenhum de nós resolveria o problema sozinho.
Onde está a sustentabilidade nisso tudo
Sustentabilidade em compras não é só escolher o material mais “verde”. É pensar o ciclo completo da operação. Nesse projeto, vejo três dimensões:
Econômica. Produzir o material genético com qualidade reduz a dependência de soluções caras e torna a expansão viável no longo prazo.
Operacional e sanitária. Uma solução desenhada para a realidade do destino, com distância, clima e tempo de viagem considerados, reduz perdas e retrabalho. E mudas de laboratório eliminam o risco de contaminação do canavial.
Social e do negócio. A expansão sustentável do canavial era o que garantia o sustento de cerca de 10 mil famílias de trabalhadores. Era isso que estava em jogo a cada caixa que saía do laboratório.
O que ficou
Depois do projeto, mudei-me para Marromeu, onde morei de 2011 a 2015 como Diretor de Suprimentos da açucareira. Acompanhei de perto o ciclo de vida do canavial e a transformação da produtividade. Pelo que sei, a tecnologia continua sendo usada para levar mudas a longas distâncias e a outros países.
Tenho um carinho enorme por Moçambique e pelos moçambicanos. Nunca esqueci as palavras do hino nacional, que refletiam nossa realidade naquele tempo: éramos muitos braços e uma só força.
A principal lição que levo é que o Procurement entrega mais valor quando senta à mesa com a área técnica desde o início, e não apenas no final, para comprar o que já foi decidido. É esse olhar estratégico, de quem compra pensando no resultado do negócio e não só no preço da nota fiscal, que busco mostrar no Procurement na Mão.





